Tuesday, May 15, 2012

Santo Antônio em Terra de São Valentim

Escultura Love, de Robert Indiana. Foto: Nina Raquel
Daqui há aproximadamente um mês será dia dos namorados em Brasília: presentes apressados sendo comprados pelo Plano Piloto, casais que aguardam sorridentes suas reservas em restaurantes lotados e amores com vistas para o Lago. Em Nova York, será uma terça-feira como qualquer outra. E eu já deveria ter me acostumado com a tradição local do 14 de Fevereiro, mas confesso que simpatizo mais com o nosso "Santo Casamenteiro" do que o mundialmente famoso São Valentim. Além disso, acho que a importância das coisas está na carga de emoção, memórias e sensações que elas trazem consigo e, nesse caso, o 12 de Junho, por repetição e definição, me lembram de casa, onde ainda está meu coração. Nova York não escancara no romantismo como outras cidades, mas existe algo que parece dizer “não é de amor que você vai viver aqui, mas vamos te relembrar que é importante encontrá-lo no caminho. Seja em algo, em alguém ou em você". A cidade faz questão de nos lembrar que existe amor e delicadeza disfarçados em suas ruas lotadas, em interações descuidadas, em olhares que se cruzam por segundos, é só prestar atenção, já que ela não nunca desacelera para que a busca seja mais fácil. Os lembretes, no entanto, funcionam. Na esquina da Sexta Avenida com a Rua 55, encontra-se uma escultura de quase quatro metros com as letras LOVE, do artista Robert Indiana. A imagem foi criada originalmente para o cartão de natal do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) em 1964, e virou escultura em 1970, no Museu de Artes de Indianápolis. Ela é reproduzida em vários outros estados, países e idiomas. E apesar da original estar em Indianápolis, a versão de Nova York é mais colorida, mais bonita e melhor localizada.

Ponte do Brooklyn. Foto: Nina Raquel
Um segredo de Nova-Iorquinos e turistas apaixonados é o de colocar as iniciais do casal em um cadeado e trancá-lo em uma das grades da histórica Ponte do Brooklyn. Cada vez mais pode-se ver cadeados gravados com letras, nomes e corações por seus bancos, grades e muros. Apesar de bonitinhos, os cadeados são contra as regras da Ponte, que possui placas alertando os pedestres de que nenhum tipo de "acessório" pode ser colocado em sua estrutura. Não se sabe se a vigilância local faz vista grossa, mas que existem cadeados de 2007 que ainda estão lá, existem. O Departamento de Transportes da cidade já informou que não se incomoda com as declarações de amor, mas elas têm que ser feitas em lugares pouco visíveis e de pouca movimentação, e se os cadeados começarem a se multiplicar a ponto de afetar o visual da Ponte, irá começar a recolhê-los. Nesse sentido, vale usar o conselho do poeta Quintana, "Se tu me amas, ama-me baixinho. Não o grites de cima dos telhados. Deixa em paz os passarinhos". Para os que decidirem se aventurar, melhor achar uma grade discreta e selar seu amor por lá.

Uma tradição curiosa da cidade é a de postar declarações de amor das mais exageradas para desconhecidos na sessão "missed connections", ou "conexões perdidas", da página "craigslist" de Nova York, uma plataforma onde se vende, se compra e se troca literalmente tudo. Lá, Nova-Iorquinos postam detalhes sobre pessoas que viram no trânsito da cidade (metrôs ou ônibus) e por quem se apaixonaram à primeira vista, na tentativa de tentar reencontrá-las. Esquisito? Um pouco. A parte legal é que as conexões perdidas são categorizadas em "de homem para mulher" e vice-versa, "de homem para homem" e "de mulher para mulher". Todo dia 14 de Fevereiro, o Museu do Trânsito de Nova York realiza a "Festa das Conexões Perdidas", em uma plataforma de metrô antiga e desativada da coleção do Museu. Jornalistas e escritores conhecidos do New York Times fazem leituras, poesia e graça dos anúncios mais interessantes e artistas expõem pinturas inspiradas nas conexões perdidas. O evento é totalmente gratuito e se não der para se emocionar com as declarações, dá para se divertir. A festa é anunciada na página do museu: http://mta.info/mta/museum/

Capa do álbum The Freewheelin', de 1963. Foto: Don Hunstein
Nova York foi o cenário de uma das minhas fotos preferidas, a de um amor despretensioso, de um encontro que não foi eterno, mas foi intenso, e está imortalizado na capa de um dos melhores álbuns da história. O jovem Bob Dylan, de vinte e dois anos, e sua então namorada Suze Rotolo, caminham sorrindo e de braços dados para a capa do seu segundo álbum, The Freewheelin', que tem entre seus clássicos "Blowin' in the Wind" e lançou o artista como ícone mundial da música folk. O ano é 1963 e o bairro é Greenwich Village, na Rua Jones com a Rua West 4. A foto foi tirada a poucos metros do prédio número 161 da Rua West 4, onde Dylan morava. Histórias de amor como essa, que começam inadvertidas e sossegadamente improvisadas, podem tornar-se clássicos ou, no mínimo, muito especiais para quem as viveu nessa cidade.

Capa da revista Americana Life, de 1945. Foto: Alfred Eisenstaedt
Em 1945, Nova York também foi o cenário do beijo mais apaixonado e improvisado da história, entre um marinheiro e uma enfermeira que nunca haviam se visto antes, em comemoração ao fim da Segunda Guerra Mundial. A cada cinco anos, a administração da Times square organiza um evento "do beijo" onde centenas de casais, vários vestidos de marinheiros e enfermeiras, vão para a mesma localidade do famoso ato, na Sétima Avenida próximo as ruas 44 e 45, e recriam a cena outra vez. Havia pouco a se celebrar nessa época, tempos tristes de guerra e injustiças. Mas um beijo como esse aconteceu e isso, em si, merece ser relembrado.
O próximo evento será no dia 14 de Agosto de 2015. Para mais informações:
http://www.timessquarenyc.org/events/kiss-in 

Monday, April 16, 2012

Pra não dizer que não falei das flores.

Rockefeller Center em flores. Foto: Nina Raquel
Mudam-se as estações e tudo muda por aqui. Sorrisos gratuitos começam a substituir os olhares melancólicos de quem via o dia acabar às quatro da tarde, as roupas mudam, o clima esquenta, as pernas apressadas reaparecem, as flores desabrocham e Nova York renasce em sua versão mais colorida e simpática. A gentileza intencional dos Nova-Iorquinos surge como um bônus pelos feriados religiosos e familiares dessa época e conforta o coração de quem está longe de casa. E para quem teve Brasília como casa, há uma sensação de deslumbre encontrada aqui que só quem já andou por uma super-quadra do plano piloto e parou para admirar ou fotografar um ipê em flores conhece. Na primavera, Nova York é toda esperança, é gente sorrindo sem muita razão como num estado de alegria inocente de criança. É quase estranho lembrar que Wall Street e todo seu significado está nessa mesma cidade de jardins, inocência, cores e humor.
Os significados dos feriados de Páscoa para os católicos e de Pessach para os judeus trazem uma celebração de algo mais do que a renovação, a passagem e a libertação que eles simbolizam, trazem algo etéreo, um clima de harmonia, um sonho com significado onde, independente do que cada um acredite, todo mundo só quer brincar e ser perdoado. E para mim, a lição de perdão mais linda dessa época não é dada por nenhuma religião, e sim pela natureza, que brota sem timidez e com tanta vivacidade que parece nos mostrar que, mesmo quando esquecemos de valorizá-la, de protegê-la e de cuidá-la, ela nos perdoa e nos presenteia com beleza. 

Karin Vazquez e o ipê-rosa, Brasília. 
Os ipês de Nova York chamam-se cerejeiras. De origem Japonesa, elas começam a brotar em março, início oficial da primavera, e desabrocham em abril, criando um espetáculo de cores e harmonia. É tão lindo quanto a surpresa de se ver um ipê florido ao voltar do trabalho. No Jardim Botânico do Brooklyn, o "Hanami", costume tradicional japonês de se contemplar as cerejeiras em todos os momentos do desabrochar, é praticado com disciplina asiática pelos locais. No sítio do Jardim Botânico pode-se inclusive acompanhar a flora através de fotos para então decidir o dia da visita de acordo com o auge do desabrochar dos jardins. Mais metafórico impossível. O fim do Hanami culmina com o festival de cultura Japonesa Sakura Matsuri, que ocorre nos últimos dias de abril. Já em Manhattan, um dos meus jardins favoritos fica no Central Park e se chama Conservatory Garden, é de uma beleza simétrica e programada, como os jardins de  Brasília. Com cores e formatos escolhidos estrategicamente, vale a pena se perder pelos corredores e mirantes desse jardim, e reconhecer os canteiros do Plano Piloto em flores e simetrias familiares.

Jean-Jacques e a cerejeira, Nova York.
Para passar uma primavera poética no Central Park, um ótimo programa é o passeio de barco a remo no lago do parque, que abre de abril à novembro, das 10:00 da manhã até o pôr-do-sol e custa $12,00 dólares por barco, com ocupação para até quatro pessoas. Depois de um dia lindo, florido e bucólico no Central Park, uma dica é conhecer o Roof Garden Café, um ambiente aberto no topo do Metropolitan Museum, um lugar ideal para drinks com vistas maravilhosas do parque e de Manhattan. O Café abre à partir de maio, todos os fins de semana até às 08:00 da noite. Uma outra opção para um fim de tarde primaveril é o bar/restaurante "The Frying Pan", em um navio original de 1929 ancorado no pier 66 de Manhatan. Um  dos programas mais legais de Nova York quando o clima está bom.

Conservatory Garden, Central Park. Foto: Nina Raquel
Um parque mais discreto mas cheio de personalidade é o Bryant Park, pequeno e localizado entre ruas movimentadas e barulhentas, mas que se torna um oásis zen de Maio à Setembro, quando oferece aulas públicas e gratuitas de yoga em seu gramado todas as manhãs e noites de terças e quintas.
Uma atividade curiosa e muito engraçada é a "briga de travesseiros" gigante da cidade, todo começo de Abril no Washington Square Park, um dos mais artísticos da cidade. Esse ano, mais de cinco mil pessoas participaram da brincadeira e foram pra praça com seus travesseiros embaixo do braço. Caso você não seja alérgico(a) como eu, a farra terapêutica é mais do que válida. Em uma cidade onde nem tudo são flores, só a primavera consegue fazer qualquer Nova-Iorquino, incidental ou não, desacelerar, observar e (re)aprender a se deslumbrar com as pequenas alegrias dessa estação.


Para mais informações:

Jardim Botânico do Brooklyn: http://www.bbg.org/
Conservatory Garden: http://www.centralparknyc.org/visit/things-to-see/north-end/conservatory-garden.html
Roof Garden Café do Metropolitan Museu: http://www.metmuseum.org/visit/plan-your-visit/dining-at-the-museum/roof-garden-cafe-and-martini-bar
Yoga gratuita no Bryant Park: http://bryantpark.org/plan-your-visit/yoga.html
Briga de Travesseiros do Washington Square Park: http://www.pillowfightday.com/2012/new-york
Restaurante Flutuante "Frying Pan": http://fryingpan.com/

Sunday, March 25, 2012

Nova York Proibida

Que vergonha! Foto de contrabandistas de álcool nos EUA em 1929. Fonte: New York Times 
Semana passada eu assisti o filme O Artista em um cinema do bairro East Village e fiquei nostálgica por algo que eu nunca vivi. Saí de lá com vontade de encontrar uma Nova York que permanece escondida em um passado que para mim representa o início do que me faz secretamente admirar a cultura americana em momentos de descuido: a música, a criatividade, a capacidade de juntar seus pedaços após uma quebra e se reinventar, os mocinhos e os bandidos, as divas, os figurinos impecáveis, a classe de uma época onde não havia realidade barata televisionada por pseudo-atores, onde música era sinônimo de talento, onde os prazeres eram privados e a proibição deixava tudo mais interessante. 

O filme, que se passa em 1927, retrata a transição do cinema mudo para o falado. No entanto, uma mudança menos sutil acontecia nessa mesma década: a era da proibição, a lei seca Americana. Em 1920 entrava em vigor a 18ª Emenda à Constituição dos EUA aprovada pelo congresso Americano que proibia a fabricação e venda de bebidas alcoólicas. O Ato de Proibição Nacional só terminaria em dezembro de 1933 com a 21ª Emenda à Constituição Americana, permanecendo ativo por 13 anos. Durante essa época, metade das bebidas nos EUA eram produzidas clandestinamente ou adulteradas, o que forçou a era clássica dos drinks dos anos 20 a sair de cena. Coquetéis de péssima qualidade e mau-gosto estavam em cartaz. Muitos anos antes de Carrie Bradshaw e seus cosmopolitans, Nova York vivia a pior época para coquetéis da sua história. A expressão muito usada aqui quando algo é muito bom "to die for", ou seja, "de morrer", era literal na época da proibição. Durante o período de férias de 1926 em Nova York, 47 pessoas morreram por beberem bebidas envenenadas, no mesmo ano, a contagem subiu para 741 pessoas. Os coquetéis clássicos e barmen profissionais saíram do país e se instalaram em Londres e Paris, que se tornaram sinônimos de liberdade, classe e sofisticação.

John A. Leach, Chefe da Polícia de Nova York, observa seus funcionários derramarem bebida ilegal no esgoto após uma apreensão em 1921. Fonte: New York Times 

Bar? Onde?

"Joe sent me" Fonte: New York Times
Os bares "speakeasy", traduzidos como "fale baixo" se tornaram a atividade ilegal mais lucrativa da história dos EUA. A idéia era disfarçar o máximo possível bares, de maneira que as autoridades não pudessem identificá-los. Portas escondidas em restaurantes, entradas subterrâneas em hotéis, paredes falsas em mercearias, senhas, valia tudo para que os estabelecimentos se mantivessem disfarçados e acima de qualquer suspeita. Os clientes tinham que acessar os locais da maneira mais discreta possível. A expressão "Joe sent ment" ou "João me mandou" era a senha mais dita ao se bater na porta de um bar speakeasy, enquanto o cliente era verificado por um olho mágico do outro lado da porta. 

Belle Livingston, sendo levada para depor em 
 um delegacia em 1931. Fonte: New York Times
Durante esse período o contrabando de álcool se tornou um dos negócios mais rentáveis dos EUA, o gangster Al Capone controlava Chicago e quase todos os seus bares speakeasy. A maior quantidade de álcool contrabandeado para o nordeste Americano entrava via Canadá. E Nova York já se mostrava criadora de tendências desde aquela época, pois aqui era uma mulher quem comandava quase todos os bares speakeasy e casas de show: Belle Livingston. Em uma época em que as mulheres eram donas de casa e haviam recém conquistado o direito de votar, Belle ditava as regras do jogo na Nova York proibida. 




Crif Dogs, ou Please Don't Tell. Foto: Nina Raquel 
Nova York, 2012. Quando o presente não nos basta e falha em nos oferecer o que admiramos de onde estamos, o passado nos consola. Nova York anda apaixonada por seu passado proibido. A melhor mistificação de um bar estilo speakeasy se chama Please Don't Tell, traduzido, Por Favor Não Conte, localizado na rua St. Marks Place, no bairro East Village de Manhattan. Os clientes entram em uma lanchonete de cachorros-quentes chamada Crif Dogs, um lugar pequeno e despretensioso. Do lado esquerdo de quem entra na lanchonete há uma cabine telefônica dos anos 20, o cliente tira o fone do gancho e se identifica. Um interfone abre uma porta secreta que revela um ambiente exótico e antigo feito de coquetéis artesanais e bebidas incrementadas que são consumidas sob os olhos de animais empalhados e obras de arte.  Uma vez dentro do bar, clientes devem respeitar a regra do local e respeitar o termo, falando baixo e mantendo a descrição. Speakeasy é um termo usado atualmente para fazer graça, já que o negócio é completamente legal. Mas a intenção de se manter a áurea da era da proibição faz desses bares ótimas opções quando queremos experimentar a sensação de se voltar no tempo da proibição. Nova York decidiu se reencontrar com seu passado para continuar nos encantando com tudo que não se encontra em outros lugares. E quem diria que Americanos, com seu eterno moralismo, já gostavam de quebrar as regras e dar "um jeitinho" na lei. Soa familiar, Brasil? Como não se sentir em casa nessas horas? 

Rua Doyers, esconderijo do Apotheke. Foto: Nina Raquel
Uma outra opção é o bar Apotheke, ainda mais impressionante. O bar se esconde em uma rua deserta do bairro de Chinatown e não possui nenhum tipo de identificação. Para encontrá-lo, a referência é o restaurante Nom Wah Tea Parlor. Quando se está na frente do restaurante, há uma pequena porta à esquerda que dá para o bar speakeasy Apotheke. A decoração, a atmosfera e os drinks são incríveis e sensação de que se está fazendo algo errado, mesmo não estado, também. Todas as quartas-feiras, o lugar tem uma noite especial chamada "Prohibition Sessions", ou Sessões da Proibição, onde os clássicos do jazz dos anos 20 e 30 são interpretados por um trio de cantoras maravilhosas.  

Café Moto, em Williamsburg (Brooklyn). Foto: Nina Raquel 
Ainda sobre o jazz, a era da proibição foi um período de acensão de grandes nomes do estilo, que tiverem um papel chave no chamado "prohibition-era jazz", nomes como Louis Armstrong, Bix Beiderbeck, Duke Ellington, Paul Whiteman e Bessie Smith são artistas que se destacaram imensamente nesse período e são interpretados e ouvidos com encantamento em bares speakeasy. No Café Moto, no bairro moderninho de Williamsburg, pode-se encontrar um quê de proibicão. Apesar de não estar tão disfarçado, o local também pode passar desapercebido por qualquer visitante descuidado. Localizado embaixo de uma ponte no Brooklyn, o café se mantém solitário no fim de uma rua escura. Uma porta pequena e uma bicicleta antiga pendurada no exterior do bar são as suas identificações. O lugar é pequeno e está sempre lotado. Se você não se importa em ficar encostando cotovelos com a pessoa da mesa ao lado, a agenda musical de jazz é impressionante. Dois dos melhores grupos de jazz que eu  já vi ao vivo, Jake Sanders Small Groups and Quintet e Baby Soda são residentes do Café Moto e se intercalam entre sextas-feiras e sábados. 

Proibida ou não, Nova York sabe como agradar e se reinventar quando o atual não é tão interessante pelo simples fato de estar ao alcance de qualquer um. Como no amor, algumas histórias são mais especiais pelo simples fato de não poderem se realizar. E algumas épocas são mais interessantes pelo simples fato de não termos estado lá.

Monday, February 13, 2012

Uma segunda-feira para chamar de sua.

Woody Allen & The Eddy Davis Jazz Band at the Carlyle Hotel. Foto:Nathan Kelly
Amanhã é segunda-feira, aquele dia tão temido da semana. Como nasci numa delas (no histórico Hospital Regional da Asa Sul), venho mostrar a todos que, em Nova York, o tão injustiçado começo-de-semana pode ser sinônimo de entretenimento, boa música e encontros imediatos com mitos do cinema. No distinto Upper East Side, de 09 de Janeiro a 18 de Junho, somente às segundas-feiras, Woody Allen toca jazz em sua clarineta com a The Eddy Davis New Orleans Jazz Band, e qualquer um que possa desembolsar um cover artístico de $95,00 dólares terá uma segunda-feira inesquecível e digna de chamar de sua.

O Café Carlyle fica localizado no The Carlyle Hotel, no Upper East Side. O show começa às 20:45. O valor de $95,00 dólares é apenas para os que preferirem ficar no bar do Café (opção mais econômica, porém com vista menos privilegiada da banda). Quem preferir viver a experiência completa e sentar numas das mesas próximas aos músicos deve desembolsar $135,00 dólares. Existem ainda opções de $185,00 dólares para as mesas premium (primeira fila).

Nova York, locação de tantos clássicos do cinema mundial, é democrática ao oferecer seus sons, luzes e cores para a cenografia de personagens involuntários. Com curiosidade e uma câmera na mão, as mais diversas interações ocorrerão na frente de seus olhos (lentes) como se você estivesse fazendo parte de um roteiro improvisado. Como Woody Allen, qualquer um pode utilizar Nova York como sua locação e dirigir os milhões de figurantes que fazem dessa cidade um filme para chamar de seu.

Pela quantidade de câmeras que vejo balanceando em pescoços apressados, sinto que todos que caminham pelas ruas de Nova York têm a mesma impressão: a qualquer minuto algo fantástico pode acontecer, e é melhor sempre estar preparado para virar testemunha ocular. Quantas vezes, ao caminhar e ver um clipe musical sendo gravado, ou uma cena de filme de aventura com carros explodindo e pessoas correndo, não pensei: "Por quê eu não estou com a minha câmera agora!" Em Nova York, faça como meu primeiro amigo visitante, André Catuaba: filme, fotografe, edite, guarde, edite novamente e crie sua declaração de amor à cidade que, como toda diva, não cansa de ser homenageada.

Link para o calendário de atrações do Café Carlyle: 
http://www.rosewoodhotels.com/en/carlyle/dining/entertainment_calendar/



Vídeo de NYC feito por André Catuaba, amigo Brasiliense, em 2010. 


Pequena Brasília em Nova York

Time Square vista do Empire State Building. Foto:Nina Raquel
Nova York, a capital do mundo por mérito e auto-definição. Uma cidade sem problemas de auto-estima, que se reinventa e se redefine na mesma velocidade em que cria suas tendências propagadas mundo afora. Uma acolhedora teia de idéias que inspira e promove tudo que é artístico e inovador e que não julga nem menospreza nenhum nível de diferença. Uma teia que recebe e arremessa tudo (e todos) que têm a sorte de se emaranhar em suas ruas, em suas intervenções culturais, em suas expressões e manifestações de todas as minorias e maiorias que coexistem em uma movimentada harmonia.
Nova York é conhecida como o "melting-pot" dos Estados Unidos, que traduzido literalmente, significa um pote utilizado para fundir. Aqui tudo se funde e se mistura. Qualquer um pode ser visto e ouvido e, na dúvida, somos todos potenciais vencedores na batalha que viemos travar em cenário nova-iorquino. 
Uma cidade às vezes assustadora, fria, um leque de atrações constantemente agitado por mãos hiperativas, neóns incessantes, Nova York é definitivamente muita informação. Para uma Brasilense nata acostumada a ver pores-do-sol e tudo plano, a contar cristais nas trilhas para as cachoeiras, a sempre rever rostos familiares pelos pontos da cidade e sempre ser amiga-do amigo-do amigo, Nova York teve que ser absorvida aos poucos. Ao reencontrar e fazer novos amigos e ao descobrir as particularidades e curiosidades que só essa cidade têm, encontrei minha paz nessa selva de pedra e descobri que as minhas duas capitais são na verdade complementares.

Pôr-do-Sol, Brooklyn. Foto: Nina Raquel
Essa coluna começará com a minha primeira curiosidade inconsciente de recém-chegada. Como eu sabia que viria por tempo indeterminado e cheguei no outono-inverno, o que mais me atraia em Nova York era tentar encontrar o que me pudesse ser familiar. Sei que nao há muita lógica em se buscar um pouco do que se acaba de deixar para trás, mas eu sabia que se eu achasse um pedaço de casa em algum lugar ou alguém por aqui, a saudade (e o inverno) não seriam tão duros e todas as novidades que Nova York carrega em si e que estavam guardadas para mim, poderiam ser absorvidas sem olhares para trás. Comecei a morar com amigas Brasilienses que viraram minha família local, além de ter tido a sorte de fazer amigos de Brasília que também escolheram Nova York como lar. Nos divertimos ao garimpar os segredos da cidade, nos ajudamos nos momentos em que domingo à noite é domingo à noite em qualquer parte do mundo, nos informamos sobre tudo de interessante que está acontecendo e, juntos, usamos do mesmo acaso que nos trouxe para cá para aproveitar essa cidade que também tem lindos pores-do-sol aonde arranhas-céus ainda não foram construídos. Ver o céu aberto de Nova York sem ter que olhar para cima ou para baixo acalma o coração de qualquer Brasiliense que cresceu olhando pra frente. Quem vem da Capital do Terceiro Milênio, tem olhos acostumados com o original, e Nova York não decepciona sobre ângulo nenhum. Com vocês, a capital do Mundo, aos olhos de quem veio da nossa Capital:
  
Flávia Menusso
A Brasiliense Flávia Menusso tem 39 anos, é casada com um Brasileiro e trabalha no escritório da Burberry em Nova York, onde cuida da parte de vendas online e atendimento ao consumidor. Ela chegou em Nova York em 2005, com o objetivo de fazer um mestrado em educação. Formada pela UNB em Letras - licenciatura em língua inglesa, seu sonho sempre foi estudar fora do Brasil. Chegou na costa-leste Americana sem matrícula em nenhuma faculdade e com visto de turista. Após escolher fazer um mestrado em tecnologia da educação na Pace University, conseguiu um visto de estudo e se formou em 2007. Seu plano inicial era terminar seu curso e voltar para Brasília, mas em 2006, durante seu mestrado, conheceu seu futuro marido, Marcelo. O plano de voltar para Brasília foi adiado e ela resolveu fazer sua vida em Nova York. A empresa de seu marido fez a solicitação de green card para ambos, o que permitiu que Flávia conseguisse um emprego na cidade.  
Segundo Flávia, "Nova York é uma cidade incrível, me fez ficar pelo meu marido e também pelo desafio. Cidade multi-cultural, aqui tem gente de todo planeta! Só no meu círculo de amigos, posso contar no mínimo dez nacionalidades diferentes: Argentina, Polônia, Rússia, Israel, China, Japão, Itália, Grécia, Inglaterra, Coréia, Croácia, e por aí vai...Tem até Finlândia! O barato disso tudo é a lingua unificadora: minha paixão, o inglês."
Quando perguntei sobre o que a impressiona em NY, Flávia respondeu "a segurança, os restaurantes, as opções de lojas, lazer e cultura são infinitas. Aqui fora a gente aprende a respeitar o trabalho braçal, manual. Nova York valoriza tanto esses serviços que paga para uma babá entre $15-$20 dólares por hora, uma diarista recebe $100 dólares por diária, mais a gorjeta que é de quase 20% em restaurantes, cabeleireiros, manicure, e até taxistas! Com essa valorização, quando volto ao Brasil, trato os prestadores desses serviços com ainda mais respeito do que antes. Essa capital do mundo ensina! Ensina a pensar nos outros, a esperar sua vez, a respeitar o espaço dos demais, a valorizar o silêncio no metrô, a ser mais educado e tantas outras coisas que a gente só percebe que precisa melhorar quando mora aqui". 

Victor Castelo
Victor Castelo iniciou seus estudos em música aos oito anos na Escola de Brasília, e desde então vem se dedicando a área. Em Brasília, fez parte do Coro Sinfônico Comunitário, com o qual se apresentou no Carneggie Hall de Nova York. Fez parte de vários grupos corais e bandas de Brasília. Em São Paulo, graduou-se em composição popular na Faculdade Santa Marcelina; foi diretor musical e cantor da Cantando na Chuva criações artísticas. Atualmente ele possui visto de estudante e faz seu mestrado em composição no Brooklyn College.
Quando perguntei sobre o que o fez se decidir por Nova York, Victor explicou "Vim por uma paixão há um ano e meio atrás, mas o mestrado me estabilizou aqui. O visto de estudante foi relativamente fácil de conseguir, uma vez que, depois de aceito na faculdade, a parte burocrática não foi pior do que eu esperava."
Quando perguntado sobre o que o impressiona em Nova York Victor disse "Nova York é uma cidade interessante porque diversas culturas co-habitam aqui. Para mim é muito interessante me deparar com gente de lugares tão distintos do mundo a cada esquina. É uma cidade à parte da cultura americana em diversos sentidos, mesmo estando conectada ao modo de vida americano. É uma cidade cara, mas que tem opções infinitas de restaurantes, arte e lazer. O transporte é incrível, pode-se chegar à muitos lugares de mêtro e o táxi nao é muito caro."